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São Francisco processa a indústria de ultraprocessados: avanço em saúde pública ou cortina de fumaça?


A cidade de São Francisco entrou recentemente com uma ação judicial contra fabricantes de alimentos ultraprocessados nos Estados Unidos. O argumento central do processo é forte: essas empresas estariam produzindo e comercializando alimentos de forma desonesta, com impactos comprovados na saúde da população, além de utilizarem estratégias que tornam esses produtos viciantes, priorizando lucro acima do bem-estar coletivo.

Sendo bem direta: é difícil discordar completamente dessa acusação.

Hoje, o impacto negativo dos alimentos ultraprocessados na saúde já é amplamente documentado. Obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e até alguns tipos de câncer aparecem de forma recorrente nas evidências científicas. E não é apenas uma questão de açúcar, gordura e sódio em excesso — os inúmeros aditivos químicos, a matriz alimentar alterada e a forma como esses produtos são formulados também entram nessa conta.

O ponto central da ação de São Francisco é financeiro e regulatório: a cidade quer reparação pelos custos gerados ao sistema de saúde, já que os ultraprocessados representam algo entre 50% e 70% das calorias consumidas diariamente pela população norte-americana. Além disso, o processo pede a proibição de marketing enganoso — um termo amplo que, confesso, me causa certo desconforto exatamente por sua falta de definição clara.

Mas é aqui que a discussão fica mais complexa.

É muito conveniente para um governo apontar exclusivamente para a indústria e retirar a si próprio da equação. Sabemos que aprovar leis nos Estados Unidos é um processo extremamente difícil, permeado por lobbies poderosos. Ainda assim, políticas públicas são uma das principais ferramentas de proteção da população — e os governos sabem disso.

Não faz muito sentido criticar a indústria enquanto o próprio Estado segue oferecendo ultraprocessados em hospitais, escolas, programas sociais e instituições públicas. Enquanto alimentos in natura apresentarem valores mais altos que ultraprocessados. A mensagem que isso passa é, no mínimo, contraditória.

Durante a ação judicial, os alimentos ultraprocessados vêm sendo frequentemente comparados ao tabaco. Essa analogia, embora comum, me incomoda um pouco. Fumar é, em grande parte, uma escolha individual que se inicia por decisão própria. Já o consumo de ultraprocessados muitas vezes não é uma escolha tão livre assim.

Esses produtos estão em todos os lugares. São convenientes, extremamente palatáveis, baratos e, muitas vezes, a única opção disponível — especialmente para populações de menor renda. Compará-los diretamente ao cigarro ignora essa complexidade estrutural do sistema alimentar.

A pergunta que fica é: e se essa moda pega? E se cidades, estados e países começarem a processar sistematicamente a indústria de ultraprocessados? Esse modelo de negócio se sustenta?

Como engenheira de alimentos, deixo claro: não sou contra a indústria de alimentos. Ela é essencial para os estilos de vida modernos, para a segurança alimentar e para alimentar populações inteiras. O problema, na minha visão, não é a existência da indústria, mas o que ela escolheu produzir, como produz e quais incentivos regulatórios aceita operar.

Talvez o processo de São Francisco seja um passo importante. Ou talvez seja apenas uma resposta tardia a um problema que governos ajudaram a construir ao longo de décadas.


 
 
 

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